Encontrei-me com ele
na outra tarde
onde, com aquele sorriso
facilmente me justificou
a procurarmos um cantinho
nas ruas da cidade.
Ele gostava de uma amiga minha
eu gostava do sorriso dele
ele falou-me do desgosto que tinha
eu…
preferi não lhe contar
o que preferia fazer com ele!
Subimos o Chiado
não andámos muito,
um bocado,
e sentámo-nos num degrau
de pedra gasta, polida:
Travessa do Fala Só.
Na Travessa do Fala Só
as paredes grafitadas
substituíram as outras
monocromaticamente pintadas
Aos cantos cresciam limos
castanhos
regados de mijos ali mijados
e cagalhões plantados
por homens já apertados
E porquê tal travessa?
tal (não muito, há que dizer) nauseabunda travessa?
Porque era aquela que nos dava mais liberdade
nos deixava mais à vontade.
Not very tipical
Porque we are not tipical
E porque tal travessa
tinha um degrau polido
(limpo)
num canto meio escondido
que parecia o cenário de uma peça.
E foi ali que falámos
enquanto eu fumava cigarrilha
e se enrolava dum saco
erva no meio de tabaco.
E falámos de música
de rock, de Élis Regina,
das namoradas que ele teve,
das mulheres que eu não tinha,
do Principezinho, do Papalagui,
do Fernão Capelo Gaivota,
do Velho que Lia Romances de Amor,
dos livros que ainda não li
dos contos do contos de Oscar Wild,
das virgulas do Saramago,
e a conversa foi-se desenrolando
enquanto se enrolava outro charro.
E depois…
Palavra puxa palavra
as conversas são como as cerejas
e na Travessa do Fala Só
eram servidas em bandejas
E não importa o local
mesmo no meio do emerdado
de poetas ou de cães
ali passámos um bom bocado.
O do sorriso teve de se ir
Tens o meu número? Eu tenho o teu. Depois mando-te
uma mensagem!
Eu fui para o Metro
ele foi para a outra margem.
E assim ficou mais só
a Travessa do Fala Só
ficou de novo despovoada
cheia de merda no passeio
e mais beatas apagadas.