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Verdade seja dita não sei muito bem o que pensar desta página! Uma página de escrita em verso, para não lhe chamar directamente poesia. Não está tudo, há alguns poemas guardados, outros mais íntimos, é conforme… nem sei.

 

2006
Quarto - Escritório (Na óptica do meu microscópio)
Uma família normal
Não me peças para fingir que não te conheço
Travessa do Fala Só
2005
Toxofal
Homens que me perseguem
2004
Tentei parir um gato
2003
Poema da casa de banho
  2010
Visitas de Verão
Poema do museu dos dinossauros
2008
O casamento do lápis com o pincel
 

2010


Visitas de Verão

Pessoas vão e vem,
Rapazes, jovens mulheres,
Dinamarquesas, indianos, holandeses

Ficam por uma semana, ficam por uma noite, ficam por uns dias
Uns vêm para conhecerem
Outros para passear,
Outros vem pelos demais,
E outros pela aventura de irem a outros país

Chegam de mochilas às costas, sacos de plástico já cheios de roupa suja da viajem anterior,
Uns são inexperientes, outros batidos.
Licenciaturas, mestrados, doutoramentos
Ou simplesmente nada e muita curiosidade a apimentar a descoberta.

Alguns já dizem umas palavras
Obrigado, bom dia, boa noite, porr favorr.

Belgas, brasileiras, Ingleses

Uns nunca viram um gay à frente
(acham eles, acham eles)
Outros só sonham com lésbicas
Uns namoram, outros fazem por isso.

À noite voltam com o corpo coberto de pó
Riscados pelas gotas de suor
Uns já estão morenos
Outros estão vermelhos
de pele a escaldar por causa do sol.

Espanhois, Australianos, Búlgaros
De botas, de ténis, de chinelos meio descalços.
Uns não gostam de carne, outros aventuram-se nos caracóis.
Fala-se Inglês, um pouco menos de Francês, os autóctones Português.

Apaixonam-se, desenganam-se, conhecem-se
Trocam números, trocam endereços, trocam fotografias
E promessas de encontros casuais.
Passam por minha casa, todos os Verões, todos os anos.

Portugueses, Sul africanas, Polacas
O mundo passeia pelos meus quartos,
Ou corredores, ou portas.
Cozinhas trocam-se no meu balcão.
E assim no meio do mundo
Vou conhecendo a imensidão.

Este poema foi escrito num período em que tinha a minha casa cheia de voluntários do museu. Sempre me habituei a ter voluntários de outros países no Verão desde que era pequeno, para participarem nas escavações e este poema é um pouco isso.
Quinta feira, 1 de Julho de 2010


Poema do museu dos dinossauros

Crianças entram de rompante em excitação
Gritando, querendo furar a bilheteira!
Ignoram o grito dos pais chamando à razão
Para que se portem de melhor maneira.

Acalmem-se! – Bom dia.
Portem-se bem! – Quanto é?
Não se mexe em nada! – Dois adultos duas crianças.
Vamos à loja no fim! – Muito obrigado.

Vão ver o Triásico, o Jurássico, o Cretácico,
O tio rex, o dino rex, o T-rex
O maior, o mais feroz, o mais verde
O mais longo, o mais comprido, o mais pesado.

O dos sonhos, o dos filmes, o dos livros
O das histórias que contam à noite aos pais
Os que lutam no recreio lá da escola
Ou no quarto depois de jogarem à bola

São os dinossauros! São os dinossauros!
Gritam em crescendos de excitação
Dizendo aos pais os nomes da sua predilecção!
Este é o triceratops, este é o stegossauros, este é o allossauros!
Tantos sauros, tantos sauros, onde aprendem eles este nomes todos?
Perguntam os pais com admiração!

Olhem aquele mais pequeno,
Ainda mal sabe ler!
Mas a mãe lá em casa já lhe ensinou algumas letras a conhecer!
Bê-rá-qu-ió-sá… Braquiossauros!
Braquiossaurus, mãe! Braquiossauros!
Este é dos bonzinhos mãe, come erva!
E a mãe olha para o petiz, e com orgulho lhe dá beijinhos!

Mas ainda falta a extinção!
Já não há? Já não há mais? – Não!
Mas as crianças sabem que há!
À noite na caminha não largam o dinossauro que foi a prenda do papá!

Domingo, 21 de Março
Escrito no dia da poesia, para não dizer que não contribuía com nada!


2008

O casamento do lápis com o pincel

Atropelar ideias e histórias,
a urgência de te as contar,
de as enfeitar,
de as colorir com lápis de aquarela
no livro de ilustrações invisíveis
dos desenhos bem contornados
por linhas de nuvens a chover…

E a chuva estava a coser safiras e rubis
(como quem cose botões de um casaco)
e estava a prega-las às estrelas do céu,
mas agora não as vês, que ainda não é noite,
só se pedires para o sol piscar os olhos!

Em minha casa tenho uma história de amor:
o lápis apaixonou-se pelo pincel,
vão casar para a semana!
Quem está com ciúmes é o papel
que amava os dois e agora não consegue vê-los juntos…
vai suicidar-se com a tesoura!

O meu gato está calado,
já não ronrona…
se calhar é porque não tenho gato!
Mas se tivesse queria que ele fosse assim:
assim-assim…
com uma cor meia assim…

O meu gato vai ser padrinho de casamento
da minha história com a poesia.

Sabes que a poesia tem um relógio?
É como um relógio de areia,
só que é de palavras!
As palavras tem de passar pelo estrangulamento e cair uma a uma
para o outro lado,
para cima do papel se forem escritas,
para o ar se forem ditas.

Num dia destes na praia morreu um poema afogado,
era um poema meu,
pensei-o mas não lhe fiz nada,
não o disse nem o escrevi,
e ele afogou-se mesmo ali,
na praia onde eu estava.

Hoje não tenho mais poesia,
já se acabou o novelo desta
e com este bocadinho que me resta
vou coser mais umas palavras
e fazer uma festa…

Na verdade este poema deve ser de 2002/2003 mas descobri-o no meio de papeis velhos e o Pedro obrigou-me a passa-lo a limpo em 2007


2006

Quarto - Escritório

Na óptica do meu microscópio
disseco a razão do meu trabalho:
quanto de mim preenche o laboratório
do alto do tecto ao chão de soalho?

Em tudo se reflecte o meu olhar in-satisfeito
nas paredes, nas janelas, nas portas
num ângulo quase, quase perfeito
(não fosse a distorção das linhas tortas)

Quanto há de mim neste laboratório estreito?

Existe o ar!
existe o ar e o espaço que preencho,
o espaço que preenchem as coisas
e as coisas que preenchem o espaço,
a ver:
a lâmpada, a mesa, a cadeira,
os papeis desorganizados,
uma estúpida varejeira,
a extensão para o computador,
a impressora e o monitor,
as canetas (uma que já não escreve),
os lápis e o afia (que raramente serve),
recados espalhados,
cotão atrás da porta, no chão,
na estante, como um arranha céus,
livros amontoados,
sebentas e apontamentos (sebentos)
e o rádio sempre ligado a alguém que fala do outro lado.

Quanto de mim há neste quarto estreito!


Uma família normal

Na minha família,
direita mais cônjuges e rebentos,
somos trinta e um
ou melhor éramos,
há que contar com menos um
que em pequeno, pobrezinho,
morreu só tinha cinco aninhos!

Dois dos avós já foram
- paz às suas almas -
e assim somos vinte e oito
contando parelhas e rebentos
porque só em crianças são oito.

Dezasseis são mulheres
homens são doze
porque se não fossem os mortos
eram dezassete e catorze.

Dois são viúvos,
mais uma que é divorciada
já não contam para a conta
da dúzia que se casou

Seis pela igreja
outros seis pelo civil,
o casamento religioso
passou de útil,

Quatro unidos de facto
seis tem menos de dez
o que sobra para a idade de namoro
três!

Das mulheres com mais de cinquenta
todas – menos uma –
abortaram
e dessas
todas –menos uma –
porque o provocaram.
Mas disto, claro,
não se fala
nem elas se acusaram.

Um está acamado,
outro alcoolizado,
uma tem diabetes,
mas não deixa de comer crepes,
uma é epiléptica
a mais velha de todas é eléctrica
um tem gota
outro é cota
uma tem uma válvula artificial
e outra não tem atenção à tensão arterial!

Dois são homossexuais
mas não são únicos
porque nesta família,
na parte mais afastada,
há mais!

Cinco são bebés
dois já estão xonés
cinco reformados
dois desempregados
dez salariados
mais seis estudantes
com dois já mencionados.

Um doutorado
dois mestrados
seis licenciados
cinco assim assim
e uma com o segundo curso
no fim.

Com tudo isto

Doentes e carunchosos,
avós, tios, primos
e bebés babosos,
casados, unidos e divorciados,
doutorados e desempregados,
estudantes e reformados,
cornudos e conformados
sóbrios e cabeças loucas

Vim a descobrir,
para minha estranheza,
como tantas outras
que a minha família
é uma família típica Portuguesa

Mas com uma família como esta,
tão verdadeiramente normal,
veio logo um papel do Estado
a atesta-la de “disfuncional”.

Ah não senhor ministro,
desculpe,
não me leve a mal,
até a pode acusar de não ser tradicional
mas uma família como esta
que ainda se encontra pelo Natal
uma coisa não é:
não é disfuncional!

Poema declamado na FNAC Chiado a quando do 10º aniversário do Clube Safo


Não me peças para fingir que não te conheço

Tenho trinta e dois anos.
Vivo numa pequena cidade,
tão pequena que na verdade
é só vila.

Sou gay.

Sou gay
e isto não sou só eu que o sei.
Sei-o eu, os amigos que são meus,
os meus pais, a família,
os meus colegas, os meus vizinhos,
as pessoas na rua
e talvez, quem sabe, os passarinhos.

Se esta forma de viver, de me expor, é correcta?
Não sei!
- Não é uma forma muito directa?
É! Sou gay!

É a forma que escolhi de viver em sociedade,
de estar bem comigo e na comunidade
de não ter de mentir sobre aquilo que já senti
e de não ter de diminuir o que pode ser mais,
muito mais,
do que uma simples amizade.

Portanto não me peças para fingir que não sou
o que ganhei com dignidade.

Portanto pensa bem quando te dirigires a mim!
Não me venhas com pedidos
se eu não poderia ser menos “assim assim”.
Se numa conversa de amigo, contigo
poderia ser menos para poderes falar comigo.

Se podia disfarçar o que sou
para que não se saiba com quem estou…

Não, não posso!

Querido, não me venhas com cenas.
Não passei o que passei
para chegar onde cheguei.
Não trilhei o que trilhei,
não assumi o que assumi
para agora me pedires
se eu um dia na rua te vir
fingir que não te conheci!

Os monstros que enfrentas também eu enfrentei,
os medos que tens também eu os tive
só que agora são exponenciados,
mas sabes que mais?
Injustificados!

Transformei a vergonha em dignidade,
transformei o medo em sexualidade,
o não ser em afirmação,
e as expectativas em mim depositadas
(por outros, não foram por mim criadas)
não se transformaram em desilusão
mas nas minhas armas da batalha
na vitória da minha aceitação.

Por isso não me peças para não ser o que sou
«I am what I am
And what I am needs no excuses»
Sou o que sou
e o que sou não precisa de justificação, desculpas…

Portanto, amor, quando me vires na rua
não me peças para fingir que não te conheço.

Não preciso que te assumas,
não é isso que eu te peço,
mas ao menos tem coragem,
e terás o meu apreço,
de admitires que me conheces.

Se pensas que ao te esconderes se vive,
mentira, sobrevives!
É como se vive-se só metade,
metade mentira, metade verdade!

Claro que há espinhos,
claro que há amargos,
mas não estavas à espera
que a vida fosse feita de caminhos
rectos, direitos e largos.

É o amargo e o ácido
que dão sabor à terra e ao sangue,
que corre nas nossas veias,
que sustenta os nossos passos.

Por isso, por favor, não me peças
ou finjas que não me conheças,
porque se não tens a coragem
de conseguires justificar
porque tens um amigo gay
para que é que eu preciso de ti, como amigo,
francamente,

não sei!

Nota: O poema “Não me peças para fingir que não te conheço” foi feito inspirado num rapaz em particular mas dedicado a muitos que tenho conhecido. Ao escreve-lo via passar à minha frente o rosto de alguns. Quase todos os “assumidos” já sentiram o pedido implícito de “se passarmos na rua finge que não me conheces” e sabemos como isso é … eu ia utilizar desagradável, mas acho que posso utilizar cruel!
Este poema foi também publicado no blog da Não Te Prives.

Sexta-feira, 2 Junho, 2006

 


Travessa do Fala Só

Encontrei-me com ele
na outra tarde
onde, com aquele sorriso
facilmente me justificou
a procurarmos um cantinho
nas ruas da cidade.

Ele gostava de uma amiga minha
eu gostava do sorriso dele
ele falou-me do desgosto que tinha
eu…
preferi não lhe contar
o que preferia fazer com ele!

Subimos o Chiado
não andámos muito,
um bocado,
e sentámo-nos num degrau
de pedra gasta, polida:

Travessa do Fala Só.

Na Travessa do Fala Só
as paredes grafitadas
substituíram as outras
monocromaticamente pintadas

Aos cantos cresciam limos
castanhos
regados de mijos ali mijados
e cagalhões plantados
por homens já apertados

E porquê tal travessa?
tal (não muito, há que dizer) nauseabunda travessa?
Porque era aquela que nos dava mais liberdade
nos deixava mais à vontade.
Not very tipical
Porque we are not tipical

E porque tal travessa
tinha um degrau polido
(limpo)
num canto meio escondido
que parecia o cenário de uma peça.

E foi ali que falámos
enquanto eu fumava cigarrilha
e se enrolava dum saco
erva no meio de tabaco.

E falámos de música
de rock, de Élis Regina,
das namoradas que ele teve,
das mulheres que eu não tinha,
do Principezinho, do Papalagui,
do Fernão Capelo Gaivota,
do Velho que Lia Romances de Amor,
dos livros que ainda não li
dos contos do contos de Oscar Wild,
das virgulas do Saramago,
e a conversa foi-se desenrolando
enquanto se enrolava outro charro.

E depois…

Palavra puxa palavra
as conversas são como as cerejas
e na Travessa do Fala Só
eram servidas em bandejas

E não importa o local
mesmo no meio do emerdado
de poetas ou de cães
ali passámos um bom bocado.

O do sorriso teve de se ir
Tens o meu número? Eu tenho o teu. Depois mando-te uma mensagem!

Eu fui para o Metro
ele foi para a outra margem.

E assim ficou mais só
a Travessa do Fala Só
ficou de novo despovoada
cheia de merda no passeio
e mais beatas apagadas.

Quarta-feira, 12 Abril, 2006

2005

TOXOFAL

Em frente à minha casa,
no largo da igreja,
tenho um rio alcatroado
um ecoponto sem lixo
e um barco estacionado!

A humidade, à noite,
ainda traz o cheiro a maresia
e o salitre às paredes
tornando a minha casa mais fria.

No largo onde moro
existe um fontanário ainda em uso
já lá não bebem rezes ou pessoas
lavam-se carros
são outros usos

Há muros de pedra calcária
cobertos de musgos e líquenes
cal a cair com estuque
e portões, rangentes, de madeira velha
orlados por pedras de cantaria

À noite passam corujas albas
após os negros corvos da manhã
e vejo piscos, estorninhos, pardais telhados,
pintassilgos, melros, popas
águias em voo picado
e bandos de garças em V cerrado.

Passarada, chilreada, galinhada…

Volta e meia, existe pela manhã
daquela pecuária mais afastada
um certo fedor
são os porcos que amanhã
serão carne branca rosada

Às cinco toca o peixeiro
às seis toca o padeiro
o sino com verdete
já só toca a finados
e de quando em quando
à missa e ao foguete

Em frente à minha casa
o largo estava deserto e vazio
e na noite estrelada, fria,
alcancei o mundo, o universo,
duma aldeia que dormia
enquanto eu a passava a verso.


Homens que me perseguem

No banco do largo central
Daquela pequena vila litoral
Espera-me aos fins de tarde
olhos de homens que me perseguem.

Vão ali para me verem
Para me admirarem
Para me condenarem
Para me desejarem

Nunca falei com eles,
Jamais.

Sei quem são
Sei donde são
Sei o que querem
Sei mais deles
Do que eles próprios sabem

Sei que me admiram
Sei que me condenam
Sei que me desejam

Sei que tem medo de mim
Medo do que eu represento
De como eu me apresento
De como eu ando na rua
De como sendo o que sou
A minha vida continua
Numa vida que acham não poder ser a sua

Sei que tem medo de mim
Medo de que fale com eles
Se as pessoas sabem o que sou
E se pensam que eles são
Então decerto que aquele que comigo falou
Há-de ser tanto como eu sou
Um homem de perdição.

Sei que me admiram
Pela minha assunção
Represento para tantos homens
Aquilo que nunca serão!

Sei que me desejam
Que fale com eles
Que lhes toque
Na privacidade do banco de trás de um carro
Na escuridão de um quarto alugado.

Mas nunca falei com eles,
Jamais.

Sei quem são
Sei donde são
Sei o que querem
Sei mais deles
Do que eles próprios sabem

Sei que se com eles falasse
Tudo negariam em exaltação
- Que era importante que o povo soubesse
Quem começou com a conversação:
Eu!

Por isso nem adianta conversar!

Os olhos dos homens que me perseguem
São os mesmos que se masturbam culpabilizados
Se deitam ao lado da mulher
Depois dos miúdos já estarem deitados.

Quinta-feira, Maio 12, 2005


2004

Tentei parir um gato

Tentei parir um gato
Quando quis transportar
O meu desejo de ser pai
Para o animal de estimação
Que dormia no meu quarto.

Mas era um gato,
Simplesmente um gato,
Não era alguém para quem eu olhasse
E visse na sua pequena cara
Fisionomias que também vejo no meu retrato.

Tentei parir um cão
Ou um canário,
Ou um piriquito,
Um peixe num aquário
Um tamagochi vindo do Japão.

Mas não,
não era nada disso que eu queria
Eu queria um filho meu
Um pedaço de um corpo como eu
Alguém com metade do meu DNA
Alguém que me chamasse pai
E que me chamasse pai… já!

Queria amar como pai
Ser amado como tal
E amar assim
independentemente
De ser Verão,
dia de aulas ou Natal.

Eu não quero ser pai por birrinha
Quero ser pai de direito
Por responsabilidade e por sémen
Por vontade própria
E também por respeito

Vão p’rá merda
Os que dizem que não tenho direito a ser pai
Mais à merda os que atestam
em ofício regulamentar
os que dizem sem me conhecerem
que não tenho capacidades para educar!

Que sabem eles do amor que tenho para dar?
Que sabem eles quando choro por o não poder fazer?
Que sabem eles da forma como o pretendo educar?
Que sabem eles do filho que ainda hei-de criar!?

… … …

Entretanto consolam-me:
- Olhe, crie um gato!
Que dizem eles?...
Estou farto! Farto!

Poema constante nas actas do congresso de Homoparentalidade do ISPA


2003

Poema da casa de banho

Lembrei-me deste poema
Esta manhã na casa de banho
Enquanto limpava o rabo
No papel onde já havia limpo o ranho.

Foi quando,
após ter limpo e já dobrado o papel ao meio
vi entre a mérdea cor
uma casca de nêspera
que me havias dado ontem
com carinho e amor.

Foi quando me lembrei de ti
quando olhava para o papel higiénico
e no meio dos meus restos vi
que mesmo ainda ali
havia carinho e amor
do mesmo amor que ontem senti.

E foi quando,
feliz,
me lembrei de te contar
que mesmo ao limpar o cú
me lembro de te amar!

Mas não,
tu,
nem quiseste escutar.

Com um tolo pudor
puseste-te a imaginar
que raio de amor
pode ter uma pessoa
que pensa na outra
quando o cú está a limpar!

Foi quando,
barafustando, zangado, irritado
a gritar e meio a chorar
bateste com a porta
e foste embora
para dar uma volta
de mais de uma hora.

Foi quando,
eu,
também triste, irritado e frustrado
fui-me à taça da fruta
e em jeito de auto comiseração
comi o kilo e meio de nêsperas
que ainda haviam no balcão.

... quando tu
ao voltar no final da tarde
na casa de banho me voltaste a saber,
eu estava de caganeira
pelo kilo e meio de nêsperas
e tinha o cú a arder.

Foi quando tu,
esquecido da discussão,
com tamanho carinho, amor e dedicação,
me trataste e protegeste,
e até no rabo creme me meteste.

E foi quando tu,
por fim percebeste,
que mesmo tendo a merda como tema,
nela podemos encontrar o amor,
ou mesmo fazer um poema!

Praticamente sem comntários, foi escrito em 2003 e saiu na Fanzine nº 15