Home
Apresentação
Curriculum
Ilustração
Museologia
Zootecnia

Percursos
Recomendações
Material de apoio

All CIID
CIID 2000/2001

CIID 2002
CIID 2003
CIID 2004
CIID 2005

CIID 2009

Animais
Dinossauros
Fósseis
Arqueologia
Pintura
Entrevistas
Estudos
Cinema
Livros
Brincadeiras
Facebook
Postcrossing
Posts
...

Artigos, reportagens, entrevistas, enfim, coisas escritas publicamente,
por mim ou sobre mim.

Escrever artigos, "darmos a cara" quando se trata da orientação sexual, sermos entrevistados, tudo isto se traduz na possibilidade de manifestarmos a nossa opinião, mostrarmos o nosso ponto de vista, esclarecermos alguém sobre algo que nós conhecemos melhor. É uma forma de cidadania e de usufruirmos da liberdade de expressão e de usarmos activamente a democracia.

Artigos publicados
Nota: As entrevistas são da autoria do jornalista citado

 

Os 10 anos do GTH

Sem Medos nº9, Maio 2001

 

 

 

 

 

 

 

Lembro-me com alguma clareza da primeira vez que ouvi falar do GTH. Ainda não tinha saído do armário e lia, meio às escondidas dos meus pais, numa reportagem a notícia do recém formado GTH. Na fotografia estavam dois homens a beijarem-se e eu sentia um meio de inveja e respeito por eles. “Um dia quando for grande...”
Hoje já sou “grande” (1,83 o que não quer dizer que seja grande coisa) e também eu sou activista gay. Quanto aos jovens do recorte do jornal tornei-me num deles, embora ainda não tenha sido fotografado pelos média a beijar alguém.
O GTH influenciou positiva e definitivamente a minha forma de encarar a vida. Afinal em Portugal existiam mais como eu e que lutavam por algo que ainda não compreendia totalmente mas que sabia bem lá no fundo serem valores correctos e naturais.

O GTH estará sempre conotado a uma forma de luta política pelos direitos LGBT. Ao GTH está associado a preferência de fazer as coisas de uma forma mais “revolucionária” e menos ortodoxa, preferência essa que lhe granjeia algumas antipatias dentro do próprio movimento LGBT. No final de contas o movimento LGBT presume-se, e é, um movimento apartidário, mas nem por isso necessariamente apolítico, e que melhor forma de se obter conquistas políticas do que ter um grupo de trabalho LGBT no seio de um partido político com assento parlamentar. Daqui só é pena não existir algo de homólogo no partido que está à frente do governo, seja ele qual for a sua cor.
Do historial do GTH não sou profundo conhecedor, e alguém mais bem informado do que eu não terá perdido a oportunidade de o descrever mas tenho a sensação de que desde o momento da formação do grupo ele terá sido um espinho encravado na garganta de muita gente, que de repente se aperceberam que no final de contas a “posta” da orientação sexual “Portuguesa” também tinha espinhas, e só pelo nome devem-na ter excomungado, pois além de espinhas tinha um sabor amargo também!
O GTH representa hoje para mim uma forma de luta dinâmica, política, sincera e contundente pelos direitos LGBT, pelos direitos que são meus, são nossos e são sobretudo da sociedade em geral, independentemente da sua orientação sexual. O GTH não está só de parabéns pelos seus dez anos de existência, uma estátua também pode fazer dez anos de existência, estar de parabéns, e no entanto a estátua está para ali e não faz nada! O GTH está de parabéns mas é por dez anos de trabalho, de luta, de manifestações, de não se calar, de não se conformar, de não parar. Se me pedissem para dedicar alguma coisa ao GTH por dez anos de vida dedicar-lhe-ia o “Cântico Negro” de José Régio:
 
«(...) Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei pôr onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!»

Em meu nome pessoal e em nome do Grupo Oeste Gay que represento: parabéns GTH !

Nota: O "Sem Medos" era o boletim do extinto (convertido) Grupo de Trabalho Homossexual do PSR. O GTH foi a colectividade que durou mais tempo e pela celebração do seu 10º aniversário convidaram-me a escrever algo. O texto é a resposta a esse pedido.
 

 

A falar politigaymente correcto

Korpus nº 14, Abril 2001

 

 

 

 

 

 

 

Um dos desafios de quem anda nisto dum “activismo” gay, de dar a cara, entrevistas aos media, debates de esclarecimento ou simplesmente informações às curiosidades e ignorâncias d@s amig@s, é a forma de como nos exprimimos.
Nunca me senti tão preocupado nos termos que uso como quando falo sobre a homossexualidade a pessoas ou em público. O cuidado de não dizer “a minha opção sexual” mas a “orientação sexual”, o volta e meia deixar escapar um “normais” quando deveria ter dito “heterossexuais”, o de dizer gays quando o que está implícito são os LGBT, o de estar a dizer “transsexuais” quando me estou a referir a “transgenders” e de quando digo “transgenders” maior parte das pessoas dizerem “hãm???...”. Depois o que volta e meia me torno chato quando os meus amigos conversam comigo e eu os corrijo “não é opção é orientação!”. Muitos felizmente já o dizem “correctamente” e é com agrado que verifico que alguns até já tem um discurso mais correcto do que muitos gays que eu para aí conheço.
Um segundo problema torna-se a própria comunicação social. Mesmo que nós tenhamos todos os cuidados com a nossa linguagem os jornalistas insistem em dizer por suas próprias palavras o que nós dissemos, e o que normalmente acontece é sair asneira atrás de asneira! Isso ficou bem patente nas várias reportagens que fizeram sobre a semana do gaypride de Lisboa. Agora o que é grave é quando temos pessoas que representam associações LGBT que se servem da desculpa da ignorância dos jornalistas para cobrirem as suas próprias e repetidas falhas no seu discurso.
O segundo erro, tão grave como o primeiro, é insistirem em tomar a parte pelo todo, isto é: “confirmarem” à imprensa que a comunidade gay tem um estatuto económico superior, um maior poder de compra, um nível cultural e social mais elevado, etc. Menin@s, se isto se pode aplicar a alguns é no entanto falso para a maioria. Se calhar @s que nós conhecemos nas discotecas da capital e nos engates de circunstância até tem o perfil descrito, e nós conhecemo-l@s porque quase tod@s já fizeram o seu coming-out, agora a maioria nem sequer vai aos bares e discotecas “rosa”. Quando falamos para a imprensa não podemos brincar com lobbies, maiores poderes de compra, e que a nossa vida, apesar de sermos gays, corre bem e até ganhamos um bom salário porque não temos filhos para criar! Isto é falso para uma maioria e os jornalistas não são sempre desculpa, pois até eles aprendem se insistirmos nos termos correctos. Agora quando continuamente se dão punhaladas no discurso LGBT, não há jornalista que aprenda e que sirva de desculpa para os nossos próprios erros! Andam uns a ensinar para outros vulgarizarem no mau sentido os termos com que nos “definem”.
E assim, é com avanços e retrocessos que caminhamos e lá vamos conseguindo umas “igualdadezinhas”.

Nota: A Korpus é uma revista destinada a um publico alvo homossexual. Este artigo, apesar de antigo, ainda tem uma actualidade inquietante.

 

Manifesto do Aborto

Fanzine nº 9, Primavera 2002

 

Não defendo a interrupção voluntária da gravidez como solução ou como método contraceptivo pós concepção. A criminalização do aborto leva a que muitas mulheres procurem formas pouco adequadas e nada seguras para provocarem a interrupção da gravidez, causando muitas vezes traumas graves à mulher e mutilações internas que podem ficar para a vida chegando, nalguns casos, a provocar infertilidade permanente ou, em casos extremos, provocando a morte da mulher. A despenalização do aborto levará as mulheres a procurarem apoio especializado e competente para o provocarem, e a que sejam medicamente e socialmente assistidas a partir daí.
A despenalização do aborto não é a solução de gravidezes indesejadas, mas é a forma de essas gravidezes serem menos frequentes, mais controladas e acabarem menos de formas pouco nobres como a morte ou a infertilidade permanente impossibilitando assim o casal de vir a gerar uma criança com plena consciência.
O que é mais vergonhoso para um governo? Ter uma lei que uma interrupção voluntária da gravidez medicamente assistida, por pouco ético que seja, ou uma lei que leva as mesmas mulheres, que continuam a praticar a interrupção voluntária da gravidez, de forma perigosa para a sua saúde e a do feto se este sobreviver.

 


Nota: O manifesto já antes havia sido utilizado para uma tomada de posição pública sobre o aborto.
 

 

«Simão e António»

Magazine Domingo
do Correio da Manhã

nº 8498, 25 Agosto 2002

«Simão Mateus tem 28 anos, vive perto da Lourinhã, trabalha em ilustração científica e é coordenador do Grupo Oeste Gay. António tem 29 anos, vive em Lisboa, trabalha na Câmara Municipal de Odivelas e faz activismo gay. Conheceram-se há ano e meio e, desde então que mantém uma relação estável. «Regra geral estamos juntos todos os fins de semana e sempre que possível durante a semana. Ás vezes é complicado porque trabalhamos em cidades diferentes, mas tentamos» contam. A distância não afectou a relação. Quando se confrontam com a sua orientação sexual e falaram com a família e os amigos, as reacções foram positivas. Simão recorda: «tive imenso apoio dos meus amigos. Confesso que quando comecei a falar da minha orientação estava receoso mas fui apoiado». António acrescenta: «penso que de certeza tive sorte porque amigos e família tentaram compreender-me». Apesar da distância, são felizes. Lutam por uma sociedade mais justa e, enquanto casal, não põem de lado a hipótese de terem um filho.»

Texto: Sofia Rato

Nota: O Correio da Manhã fez um dia uma reportagem sobre a homossexualidade em Portugal entrevistando diversos casais. O texto transcrito é a parte da reportagem que focava sobre mim e o António.
Esta entrevista teve várias consequencias: Nunca uma revista desapareceu tão depressa das mesas dos cafés da Lourinhã nem nunca uma revista do Correio da Manhã circulou tanto dentro da Câmara Municipal de Odivelas.
O António diz que para sermos capa de revista tinhamos de optar por dois títulos: ou «Matei a minhã mãe á paulada» ou "Como marido e mulher». Achámos a primeira hipótese um pouco demais.

 

Porque é que nós, gays, preferimos os homens!

Cosmopolita nº 124, Agosto 2002

 

Fico perdido a olhar para o tecto do quarto a pensar porque será que nós, gays, preferimos os homens? Ficou-me essa questão para digerir e pensar, ruminar sobre o tema. Confesso que é mais difícil do que parece dar uma resposta a algo que poderia parecer tão simples. Bem, porque é que eu prefiro homens às mulheres? Por falta de ter experimentado o sexo feminino não foi, já estive com mais mulheres do que maior parte dos meus amigos “hetero”! Dando a volta à questão: Porque é que maior parte dos homens preferem as mulheres? Pensando bem também não há resposta científica a isso, e quando levei a questão a casais hetero meus amigos deram aquela resposta que não admite réplicas nem dúvidas: «Porque sim!»
Realmente “porque assim” é a melhor resposta. No final de contas deveremos gostar de homens pelos mesmos motivos que a maioria das mulheres gostam do sexo masculino – cerca de 90% a acreditar nas estatísticas mais consensuais. Queridas leitoras, conseguem enumerar as razões objectivas porque a maioria de vós gosta de homens? Será pelo aspecto masculino? Pelos ombros largos? Pela face áspera da barba? Ou simplesmente pelo orgão sexual que nos caracteriza a nós, homens? Não sei porque razão os gays, preferem os homens, mas de uma coisa tenho a certeza: a razão é plural e à “razão” de uma por cabeça, ou seja: cada um de nós tem as suas razões e eu querer dar aqui a “resposta solução” era incorrer num erro que não me perdoavam.
A preferência por pessoas do mesmo sexo nem se deve a ter alguém “mais semelhante” a nós. Não pense que um casal de lésbicas passa o dia a discutir dietas, perfumes e dos últimos episódios das novelas. Elas podem ser tão diferentes como numa relação heterossexual. Eu e o meu companheiro não passamos o dia a discutir futebol ou o último modelo de carro que saiu! Temos os mesmos problemas que a maioria das pessoas, acrescidos de muitas vezes não os podermos resolver em conjunto. As poucas vantagens duma relação gay é eu poder usar algumas coisas que o meu namorado usa. Imagine uma relação em que tem outra pessoa a quem recorrer quando precisar de um vestido, dum batom ou de um tampão nos dias mais chatos!

Quase sempre, o querer saber a razão dos gays gostarem de homens leva à questão da existência dos gays ou das diferentes orientações sexuais. Já agora, caras leitoras, é esta a designação correcta: não são opções mas sim orientações. Opção é eu poder levar uma vida heterossexual apesar de me sentir atraído por homens! Continuando: mais uma vez na questão do motivo da existência de diferentes orientações sexuais as respostas estão longe de serem consensuais, únicas e aceites. Uns dizem que é genético, outros dizem que é social, outros educacional, outros ocasional, a existência duma “mãe castradora”, a não existência da mãe, o tamanho dum lóbulo da hipófise, a falta de um modelo masculino, a falta de convívio com raparigas durante a infância, ou então a convivência obsessiva com raparigas durante a infância! Até já ouvi que a explicação básica para tudo isto resume-se em para que lado está a curvatura do pénis! Como vêem as tentativas de resposta à existência de diferentes... diferentes quê? Diferentes orientações sexuais (muito bem) são tão variadas, díspares e antagónicas que é impossível dar a “resposta solução”.

Portanto, caras leitoras, o meu conselho é: se tiverem um amigo gay, uma colega lésbica, um filho, um pai, um irmão, ou quem sabe um marido homossexual, não percam tempo a tentar entender porque é que ele se sente atraído por pessoas do mesmo sexo. Percam antes tempo a demonstrarem-lhe que gostam dele/dela e que apesar da sua diferente orientação sexual vocês tem força para superar o preconceito e encontrar nele ou nela o ser humano maravilhoso/a que ele/ela é!

Nota: O artigo da Cosmopolita não é uma entrevista mas uma crónica. Foi-me pedido um texto com 2800 caracteres para a Cosmopólita e eu, que nunca tinha escrito nada para uma revista feminina, muito menos um quase artigo de opinião com direito a destaque, disse logo que sim!... :)
 

 

Rejeitado como dador de sangue só por ser gay!

No passado dia 27 de Agosto, Simão Mateus foi recusado como dador de sangue, no serviço de imunohemoterapia do hospital de São José, em Lisboa, unicamente devido à sua homossexualidade. Durante a entrevista prévia, o médico fez-lhe as «questões habituais sobre comportamentos sexuais» e, depois, «perguntou-me se eu tinha tido relações homossexuais, algo que nunca me haviam perguntado directamente durante as dádivas de sangue que fiz antes. Respondi que sim, com o mesmo parceiro, há já três anos e sempre com utilização de preservativo. Aí, perante a perplexidade do médico, e minha própria!, fui imediatamente recusado.» No seguimento da conversa, Simão Mateus inquiriu se «mesmo com o mesmo parceiro durante três anos, utilizando sempre preservativo nas relações anais, seria recusado como dador. Disse-me que sim devido à flora intestinal que existe no cólon e que pode vir a dar infecções. Questionei-o, então, se perguntava aos dadores heterossexuais se faziam sexo anal; respondeu-me negativamente, que nunca lhes colocava essa questão». Quando o médico alegou o facto de seguir «normas internacionais» (completamente obsoletas!), Simão Mateus ainda indagou se, caso «essas normas internacionais» não existissem, o aceitaria como dador; o médico afirmou que «ainda assim, não me aceitaria como dador». Sentindo-se descriminado com base na sua orientação sexual, Simão Mateus pediu o Livro de Reclamações, o famoso «livro amarelo», onde registou a sua queixa.

Nota: Caixa de texto do artigo “Gota a gota perdemos vidas”, publicado na Korpus nº 23, de Setembro de 2004. Artigo: Isidro Sousa

 

«Uma Vida Como Nos Filmes»

24 Horas

nº 2602 de 2 de Julho de 2005

 

«Há histórias que ainda são só possíveis no cinema. Como a de cinco amigas que se juntam para preparar o casamento dos filhos de duas delas. Parece-lhes normal? Acha que as suas tias fizeram o mesmo? Olhe que não. É que os filhos de duas destas amigas são homens. Os dois, sim...
Continua a achar que as suas tias ajudariam a preparar o casamento? Pois... Em Portugal nem há casamentos entre homossexuais, mas há uma mãe e um pai que tem tanto orgulho do filho que não se importam de aparecer em público. Sim... e ele é homossexual.
A ficção de "Rainhas", um filme espanhol em exibição nos nossos cinemas, encontra paralelo numa família da Lourinhã. Que, tal como as amigas do filme, tem orgulho no seu filho. Pouco lhes importa se ele anda abraçado a homens ou a mulheres...
Isabel Mateus, 55 anos, nunca teve de andar num corrupio para preparar a boda do filho, Simão. Mas passou anos da sua vida a tentar responder a uma pergunta que a assaltava: "Será o meu filho homossexual?"
Simão, 31 anos, só lhe respondeu aos 24, depois de anos a lutar "contra uma crise de identidade" que o fez fugir de tudo e todos. "Afastei-me da minha família, escolhi uma faculdade longe e foi lá que tive coragem para descobrir quem sou". A resposta à pergunta da mãe era simples de dar. Bastava uma palavra com três letras. Mas aquele sim era tão difícil de pronunciar...
"Sei que sou homossexual desde criança. Desde a altura em que nos começamos a apaixonar. Só que todas as minhas paixões eram secretas...". Simão gostava era dos meninos. E não era porque quisesse jogar futebol com eles. Teve namoradas, também. "pode parecer um contra-senso, mas eu era muito mulherengo, tive muitas namoradas".
Isabel, a mãe, diz sempre que pressentiu a resposta que procurava. "Não se sabe bem quando é que se começa a suspeitar, são pequenos nadas que podem ser alguma coisa".
"A própria família falava sobre isso. Havia até quem dissesse que devia levar o meu filho ao psiquiatra. Eu ficava danada...", conta a "Rainha" da Lourinhã.

Isabel e Simão vivem num meio pequeno e onde todos se conhecem. E nem sempre foi fácil ignorar os comentários dos outros. Mas Isabel nunca foi uma mãe qualquer. Ela bem que podia ser uma das supermães de que fala o filme. Só que, neste caso, não há casamento a preparar. A lei não o permite...
As primeiras pessoas a quem contei foram a dois amigos, heterossexuais. Chorei durante duas horas e, depois, disse-lhes", recorda Simão. A mãe nem queria tocar-lhe no assunto. "Tinha medo de magoá-lo". Mas, e o que disseram os amigos: "Respoderam que já sabiam".
Aquele momento acabou por ser mágico. Em vez de se desmornar, o mundo ganhou sentido. "A partir daí tive uma evolução meteórica. Comecei a namorar e decidi contar à minha mãe".
Claro que ainda há quem faça perguntas sem sentido e piadas infelizes. Mas o mundo do Simão não é cor-de-rosa. Existe uma avó que, católica, nunca aceitará a diferença do neto. Mas também há uma Isabel que resume tudo: "Acima de tudo sou mãe. Este é o meu filho e ele precisa de mim. A resposta não era o mais importante, mas tê-lo de volta. depois de me contar, ele voltou para mim". E ele sorri, feliz. Podia ter sido uma mãe-galinha, mas teve sorte... foi filho de uma "Rainha".»

Texto: Paula Freitas Ferreira

Nota: O 24 Horas fez esta entrevista na semana anterior á estreia do filme "Reinas", ou "Rainhas". Mais tarde, eu e a minha mãe acabámos por ir vê-lo na ante estreia com um bilhete gentilmente cedido pelo Clube Safo.
Esta entrevista não teve tanto impacto como a do Correio da Manhã, mas, mesmo assim nunca a vi nos locais onde normalmente ela está exposta..